A biblioteca do Frei Caneca

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digital composite of Wooden table with library background

            O lugar mais importante do mundo (ao menos do meu ângulo emocional) é a pequena biblioteca da escola Frei Caneca, lá na rua Maria Dal Conte, na pequena Flores da Cunha.

           Silenciosos eram os minutos em que, sossegada, eu percorria contracapas e ilustrações em busca da próxima leitura. Hoje entendo que era gigante a pequena estante de livros, assim como o ritual envolvido: escolher um título, preencher a ficha de entrega, procurar por eventuais rabiscos de colegas nas páginas e por vezes espiar o último parágrafo.

            “Livros são os mais silenciosos e constantes amigos”, definiu Charles Elliot. Lembro-me de preencher listas com o nome das obras lidas, seus autores e uma pequena avaliação de gosto: bom, ótimo ou regular. Na quinta ou talvez sexta-série, minha lista de amigos de papel chegou a trinta e nove exemplares no ano (número digno de uma orgia literária para um adulto). No Frei Caneca, conheci as clássicas coleções Vagalume e Reencontro; os livros regionais, como os do Charles Kiefer; e sem saber da existência da palavra catarse, mergulhei nos poemas de Drummond.

            A seção de poesia era minúscula­ ­­— nada diferente de qualquer livraria — e nela conheci o Quintana pelo título curioso “Caderno H”. A obra tornou-se quase um livro de autoajuda tamanha a sagacidade das frases curtas. Em meio ao tédio da pré-adolescência, não recordo de outro livro que eu tenha folheado mais.

           “Canção Quase Inquieta”, o poema de Cecília Meirelles, foi outro tesouro que a biblioteca me entregou e é uma prova de que a literatura é uma das poucas riquezas compartilhadas pela humanidade. Este poema é o único que decorei até hoje e eventualmente ainda o sussurro: “de um lado, a eterna estrela / e do outro a vaga incerta, / meu pé dançando pela / extremidade da espuma / e meu cabelo por uma / planície de luz deserta…”.

             Cecília me abraçou ainda criança e é dela o nome da minha filha. Queria ter muitos filhos para presenteá-los com os nomes dos autores que transformaram meu destino desde aquela época: Quintanas, Drummonds, Melvilles, Vernes.

             Uma biblioteca no interior é uma prova contundente e inquestionável de que livros são janelas, assim como a frase clichê repetiu. É a certeza de que haverá pensar num mundo rodeado de entretenimentos espetaculosos e por vezes escravizantes. Acredito no poder reflexivo e questionador dos livros, seus atalhos à imaginação, seus parentescos com a filosofia; as ideias discutidas em silêncio, o tempo infinito para assimilação, o despertar de memórias. Ainda, a liberdade da discordância (que nem sempre a discussão falada respeita) e por fim, o pensamento crítico fluído e transformador a salvo de um mundo atarefado e frenético.

Escrita em Julho de 2016.

Crônica vencedora do 12º Prêmio Literário Mário Quintana  – categoria regional

Manoel de Barros

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             Você tem um ano e três meses. É um ser humano carinhoso e sorridente. Aliás, o poeta Manoel de Barros (um dia lhe apresento) foi quem me ensinou: as crianças sabem mais das importâncias da vida.

            É intrigante pensar que nós, quando ainda em formação neurológica, parecemos melhores. Desculpe o pessimismo, mas por aqui, no lado dos adultos, vivemos um dia triste. Queria arrumar o mundo antes de você fazer dezoito, mas sei que sozinha não poderia eliminar os antônimos dos abraços que você gosta de dar. No seu universo, ainda não existem palavras que machucam os ouvidos, como terrorismo, violência e guerra, mas elas são reais e estão ali no jornal que você recém rabiscou.

            Talvez no futuro, talvez em alguma aula de filosofia, você questione: “Por que a maldade existe?”. Eu olho para seus olhos, totalmente vivos, receptivos às belezas que só as crianças percebem e pergunto-me: em qual momento de nossas vidas perdemos a leveza, a simples capacidade de existirmos em meio a natureza? Um dia lhe direi que “somos tão importantes quanto aquela formiga”, embora eu saiba que tentarão lhe ensinar que somos superiores. A busca por uma grandeza ilusória, seja ela financeira, religiosa ou política, alimenta a maior parte da estupidez existente no ser humano.

            Você crescerá e verá pessoas infelizes enquanto um sol morno as abraça. Verá óculos escuros conduzindo rostos em círculos, enquanto um sentido lhes acena. Nem sei se estarei perto quando você entender a dimensão de uma tragédia fora da televisão, tampouco quando você ouvir histórias absurdas sobre desgraças supostamente comandadas por deuses.

            Na escola, seus professores apresentarão o cérebro humano como uma ferramenta magnífica, capaz de reger a pintura de um quadro ou a execução de uma música. Mas hoje, especialmente hoje, eu não posso lhe mostrar um mundo saturado de artistas, apenas um “museu de grandes novidades” repetidas nos noticiários. Se existem deuses, penso que eles deveriam ter seu rosto ao acordar e não o de um homem bomba.

            Vários sites dizem que a sua geração vai mudar o mundo: crianças espertas e iluminadas. Não quero que você carregue este peso. Pelo contrário, quero que os adultos de hoje olhem para crianças como você e simplesmente freiem o terror.

            Desculpe o desabafo, a realidade por vezes rasga a poesia do Manoel e rouba-nos o tempo de brincar.

Crônica escrita em Novembro de 2015. 

{Em novembro de 2015 atentados terroristas foram notícia enquanto Cecília arriscava suas primeiras palavras e seus passos ganhavam firmeza. Mais de 180 pessoas morreram devido a um ataque no dia 13 de novembro de 2015 em Paris. Pouco tempo depois, em janeiro de 2016, ocorreu um atentado em Burkina Fasso, na África, com 26 mortos. Enquanto isso, a guerra na Síria, que se arrasta desde 2011, espalhava (e ainda espalha) refugiados pelo mundo e seguia fazendo vítimas inocentes como crianças da idade de Cecília}.

De nada sabemos

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Arte: Rogério Weber Kirst

Minha pequenina, de nada sabemos.

O mundo lá fora anda e desanda, grita e cala. Os ponteiros ficam tontos e os dias repetem seus amanheceres e poentes.

Eu até poderia lhe mostrar a vida além das esquadrias, mas o mundo passaria por nossos olhos apressado, como uma paisagem distorcida na janela de um trem.

Ainda é cedo. Nossos momentos são mais vagarosos que os relógios. Nossos segundos são apenas malabares: os jogamos para cima, para baixo ou simplesmente os ignoramos.

Nenhum tempo ousaria contar a duração de nossos olhares — absolutos e nada matemáticos.

Enquanto dormimos, notícias pouco ou nada importantes correm da esquerda para a direita nos jornais.  A mesma pressa que vira as páginas logo as esquece.

Estamos escondidas e talvez a salvo das coisas que os homens inventam para se ocuparem: as tarifas, as lâmpadas dos postes dormentes, os condomínio fechados (cercados) e os cardápios dos almoços. Não dançamos coreografias e nem sequer lemos as cartas que aqui chegam.

Só notamos o acercar da noite pela insistência dos bocejos. Curamos a fome porque ela reclama com vozes grossas.

Quando eu não era sua mãe, eu soprava as nuvens para que não chovesse e andava descalça para entender os caminhos (os pés as vezes doíam). O mundo balançava em minha bolsa e pesava mais do que seus bracinhos quando lhe embalo.

Meu passo era firme e apressado e, mesmo assim, minhas pernas nunca chegavam — o destino era tão distante que eu remava barcos de madrugada.

Ah, o longe…Por enquanto o meu colo lhe basta, mas sei que um dia esta tarde lenta de malabares será apenas uma lembrança. Você vai acelerar, sair e carregar o mundo em sua mochila. E eu, de braços curtos, embalarei nossas memórias e regarei seus caminhos em pensamento para que ele não machuque seus pés.

Crônica escrita em outubro de 2014. Publicada em Outubro de 2016.

{Em outubro de 2014, Cecília tinha um mês de vida. Luzes e cores cansavam seus olhos. Ela dormia quarenta e cinco minutos a cada três horas. No mesmo mês, na televisão, candidatos a presidência do país falavam uma língua que não entendíamos. }

Renascimento

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seu choro agudo

arrebentou a sala

incólumes aos cacos,

nos consertamos no primeiro abraço

surgi intrépida do pavor –

carrego-a por tempestades e guarneço as pontas do mundo

você nasceu:

parto de mim

para ser algo novo

Outubro de 2014

Mãos

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Crônica publicada no jornal Zero Hora em 04/08/2016.

Este é o ano da divisão. O mundo está dividido. O país está dividido. Chovem refugiados de países em conflito como a Síria nas fronteiras da Europa — e eles são mesmo chuva, porque caem sem perspectivas em solos estranhos. Parte da Europa os recebe de braços abertos, mas parte teme a disputa de empregos ou a eventual entrada de terroristas.

Assistimos também, como se estivéssemos no teatro ou no circo, às eleições americanas, em que sobram elementos pitorescos. Um candidato a defender muros cada vez mais altos, uma candidata com e-mails a esconder. Enfim, os vexames políticos de sempre a dividir a opinião pública em lados opostos, ignorando as complexidades da política.

No Brasil, também estamos divididos: os que são contra e a favor da Olimpíada; os “Fora, Dilma” e os “Fora, Temer”. Os “Fora, Todos”. Quaisquer deslizes de um lado ou de outro provocam avalanches de ódio nas ruas e nas redes.

Imagino que todos almejem o mesmo: escola para os filhos, hospitais sem fila, cultura acessível e a possibilidade de saírem de casa sem medo da violência. Os governantes não têm sido bons em cumprir suas promessas, sejam quais forem suas ideologias; e a união de todos para exigirem seus direitos é um caminho que parece óbvio, mas nem tanto no atual panorama, que privilegia o ataque.

Minha filha tem dois anos e exprime a vontade do livre pensar e agir constantemente. Não quer ajuda para ensaboar os cabelos, nem para subir as escadas. Exige respeito quando tentamos fazer algo por ela. Nunca imaginei que uma criança tivesse posições tão fortes a respeito de sua vida. Entretanto, ela também sabe de algo importante e esquecido no nosso dia a dia de segregações: quando está escuro, é preciso estarmos juntos.

Todas as noites, antes de dormir, já de posse de seu bico, ela admite que a coloquemos no berço. Quando desligamos a luz, ela nos pede a mão, e assim nos aperta com toda a força que seus dedos pequeninos conseguem produzir.

É assim que eu vejo o mundo que está lá fora hoje: escuro como o quarto da Cecília quando a noite chega. Mas parece que ninguém quer estender as mãos.