O Sorriso de Caio

hybrid-uGP_6CAD-14-unsplash (1)

Que Monalisa que nada! O sorriso preeminente em minha vida é o do Caio.

Em plena pandemia – na verdade um pouco antes dela, já que estamos confinados desde que ele nasceu, há alguns meses – Caio deu seu primeiro sorriso tímido numa manhã de domingo. Desde então não parou.

Caio sorri ao acordar, ao tomar banho e nas trocas de fraldas. Sorri até ao despertar aos prantos na madrugada, quando nota que alguém o acudiu. Sorri quando está se contorcendo de dor de barriga, se você o provocar com uma brincadeira.

Mas há algo especial no seu riso além da frequência – uma doçura que espelha sua personalidade. Em seu rosto de apenas quatro meses, olhares e sorrisos combinam-se e transmitem empatia e amorosidade. Vai ver é somente um derretimento do meu coração materno e exagerado.

Quando Caio morava em mim, eu sentia um certo receio pela sua calmaria. No entanto, foi uma dadiva tê-lo tido como um visitante tranquilo em meu ventre, enquanto a vida sacudia-me num pandeiro sobressaltado. Seu sorriso remansoso é tudo o que eu preciso receber e repercutir ao mundo neste momento.

Você pode dizer que Caio sorri porque sua ingenuidade é alheia ao que está acontecendo lá fora: juntamente com uma pandemia sem precedentes, estamos sendo bombardeados pela ignorância politica diária, o egoísmo fantasiado de liberdade individual, a crise econômica, as milhares de mortes, a negação da ciência e a destruição impudente do meio ambiente.  Entretanto, quando um bebê reage com alegria e ternura a olhares, palavras e gestos de carinho, ele nos relembra de algo básico sobre nossa espécie, que nos acompanha desde o nascimento: somos movidos e nos desenvolvemos desde a primeira infância devido ao amor e ao afeto. Esta simples verdade que Caio escancara diariamente pode ser o motivo pelo qual devemos salvar-nos; afinal, se estamos a espera de uma vacina que nos cure completamente, alguns antígenos estão ali, nos primeiros meses de nossas vidas. 

Junho de 2020

Caio nasceu em Janeiro de 2020. Quando nos preparávamos para seus primeiros passeios, o isolamento social devido ao vírus COVID-19 iniciou em Porto Alegre. Desde então, Caio está confinado e aprendendo sobre o mundo pela perspectiva de uma só casa. Enquanto vibramos e sorrimos com suas primeiras experiências e descobertas, os jornais escancaram tristes notícias e os cientistas e profissionais da saúde trabalham como nunca.

 

Caio já nasceu

Foto por Gane Coloda. GC_VaneCaio-148

Entre as convenções já criadas neste mundo, está a de que uma pessoa nasce quando sai do útero de sua mãe. Deixarei o cartório pensar assim, mas o aniversário de Caio será antes, ao menos para mim. Caio nasceu quando começou a soluçar, o que ocorreu há uns dois meses. Você poderia dizer que uma pessoa não nasceu se ela soluça após as refeições? Nós comemos, ele soluça.

Caio parece calmo, como um peixe tranquilo de caudas para cima. Poucas vezes chuta minhas costelas e quando o faz, é com delicadeza. Ao contrário de sua mãe, fica agitado com música e ioga. Gosta de ficar enrolado com os pés e mãos na cabeça e daí surgiu seu apelido: tatu-bola. Afinal, alguém que já nasceu pode ter um apelido. E o fenômeno é visível: quando deslizo as mãos pelo lado direito da minha barriga, uma bolinha aparece e desponta, como se ele fosse realmente um bichinho enrolado e arrepiado.

Caio já tem oito meses de vida – por isso entendo que, por mais que meu ventre estique e estique, neste ponto nós dois estamos espremidos e cansados. Ele reclama se durmo virada para os lados direito ou esquerdo. De barriga para cima, concorda apenas se a coluna ficar bem ereta, o que torna nossas madrugadas insones e com frequentes negociações.

Ao dividir com ele meu corpo, minhas horas, meus nutrientes, amplio meu cansaço e aprendo que estarmos vivos, dentro ou fora de um útero, requer abraçarmos a multiplicidade das experiências, suas dificuldades e seus prazeres. A vida real aperta, espreme e ao mesmo tempo abraça e conforta. Haja coragem. Compartilhar a vida com um novo ser, seja através da experiência da gestação ou não, é desconfortável e as vezes dolorido. Mas não há outra estrada que nos prepare e nos direcione melhor para o afeto e a entrega, forças humanas tão poderosas, que fazem valer uma existência e já me fazem amar Caio apenas por senti-lo soluçar.