O Reinado


Brinca a menina

Na floresta das cascas

Cata estrelas podres

Em latas de alumínio.

O brilho das sobras

Tem cheiro de lixo     

Os pés acostumam-       

Queimam no ácido.

Seu reino é o dejeto   

Dos nobres condomínios   

Onde dormem crianças   

Alheias ao resto.

Poema livre produzido no Desafio Literário 2019, promovido pelo Instituto Estadual do Livro RS. Texto premiado em 1º lugar (juntamente com outros textos de gêneros variados).

Cor do Sol

Ilustração por Cecília Conz Kirst

“Sou mais esperta do que você, mamãe.”

Eu sei e assim desejo, mas para minimizar sua altivez, ao ouvir tal frase, expliquei-lhe indiretamente a importância da humildade, de que pessoas sempre tem o que aprender umas com as outras. Enfim, este é meu papel nesta história.

Cecília está aprendendo a ler e a escrever. Aos poucos, corrige as palavras e expressões que costumava usar erroneamente. Nunca ousei consertar o seu inspirador “cor do sol” e inclusive incorporei a palavra composta no meu dia a dia. Aliás, penso que o português poderia ser atualizado dinamicamente com a lógica das crianças, as quais adaptam a linguagem ao sentido de suas descobertas.

“Desbagunçar”, “caienta”, “odeiei”, são exemplos de construções que em breve ela abandonará, mas que estarão mais do que corretas no meu dicionário materno (e eterno).

Cecília está vivenciando uma explosão de descobrimentos. Enquanto brinca, faz dezenas de perguntas e afirmações. “Eu sei porque os carros baixos andam mais rápido.” “Eu sei porque a ponte móvel existe.” “Para que existe a Lua, se ela não ilumina o mundo?” Cecília também exige que seja incluída em todas as conversas: “Não falem mais deste assunto sem me chamar!” Às vezes o assunto é o conserto do aquecedor a gás.

E agora faz perguntas difíceis sobre os noticiários: “Mamãe, o que é índice de aprovação do presidente?” “Por que as florestas estão queimando?”

Cecília também está observando o mundo com empatia e senso crítico. Disparou, ao ver os operários de uma obra ao lado da nossa casa, num dia de inverno: “Eles não podem trabalhar hoje, está muito frio!”

Barcos a vela também conseguem navegar contra o vento. Assim vejo as crianças, com suas mentes curiosas, criativas e puras atravessando um mundo cheio de turbulências, porém de ideias retilíneas.

Hoje é o aniversário de Cecília. Enquanto ela apagar sua vela ao desejar algum brinquedo, não saberá que dentro de mim, há seis anos, existe uma chama indelével e orgulhosa, com a qual farei um pedido: vou desejar que ela sempre seja mais esperta do que eu. Que a sua curiosidade e espontaneidade sempre a acompanhem, seja com o vento contra ou a favor.

Crônica escrita em 03 de setembro de 2020.

Cecília completou seis anos em um dia chuvoso e em pleno isolamento social. Mesmo assim, seu dia foi alegre e colorido. Cecília pulou, cantou, correu e abriu presentes.

O Sorriso de Caio

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Que Monalisa que nada! O sorriso preeminente em minha vida é o do Caio.

Em plena pandemia – na verdade um pouco antes dela, já que estamos confinados desde que ele nasceu, há alguns meses – Caio deu seu primeiro sorriso tímido numa manhã de domingo. Desde então não parou.

Caio sorri ao acordar, ao tomar banho e nas trocas de fraldas. Sorri até ao despertar aos prantos na madrugada, quando nota que alguém o acudiu. Sorri quando está se contorcendo de dor de barriga, se você o provocar com uma brincadeira.

Mas há algo especial no seu riso além da frequência – uma doçura que espelha sua personalidade. Em seu rosto de apenas quatro meses, olhares e sorrisos combinam-se e transmitem empatia e amorosidade. Vai ver é somente um derretimento do meu coração materno e exagerado.

Quando Caio morava em mim, eu sentia um certo receio pela sua calmaria. No entanto, foi uma dadiva tê-lo tido como um visitante tranquilo em meu ventre, enquanto a vida sacudia-me num pandeiro sobressaltado. Seu sorriso remansoso é tudo o que eu preciso receber e repercutir ao mundo neste momento.

Você pode dizer que Caio sorri porque sua ingenuidade é alheia ao que está acontecendo lá fora: juntamente com uma pandemia sem precedentes, estamos sendo bombardeados pela ignorância politica diária, o egoísmo fantasiado de liberdade individual, a crise econômica, as milhares de mortes, a negação da ciência e a destruição impudente do meio ambiente.  Entretanto, quando um bebê reage com alegria e ternura a olhares, palavras e gestos de carinho, ele nos relembra de algo básico sobre nossa espécie, que nos acompanha desde o nascimento: somos movidos e nos desenvolvemos desde a primeira infância devido ao amor e ao afeto. Esta simples verdade que Caio escancara diariamente pode ser o motivo pelo qual devemos salvar-nos; afinal, se estamos a espera de uma vacina que nos cure completamente, alguns antígenos estão ali, nos primeiros meses de nossas vidas. 

Junho de 2020

Caio nasceu em Janeiro de 2020. Quando nos preparávamos para seus primeiros passeios, o isolamento social devido ao vírus COVID-19 iniciou em Porto Alegre. Desde então, Caio está confinado e aprendendo sobre o mundo pela perspectiva de uma só casa. Enquanto vibramos e sorrimos com suas primeiras experiências e descobertas, os jornais escancaram tristes notícias e os cientistas e profissionais da saúde trabalham como nunca.

 

Caio já nasceu

Foto por Gane Coloda. GC_VaneCaio-148

Entre as convenções já criadas neste mundo, está a de que uma pessoa nasce quando sai do útero de sua mãe. Deixarei o cartório pensar assim, mas o aniversário de Caio será antes, ao menos para mim. Caio nasceu quando começou a soluçar, o que ocorreu há uns dois meses. Você poderia dizer que uma pessoa não nasceu se ela soluça após as refeições? Nós comemos, ele soluça.

Caio parece calmo, como um peixe tranquilo de caudas para cima. Poucas vezes chuta minhas costelas e quando o faz, é com delicadeza. Ao contrário de sua mãe, fica agitado com música e ioga. Gosta de ficar enrolado com os pés e mãos na cabeça e daí surgiu seu apelido: tatu-bola. Afinal, alguém que já nasceu pode ter um apelido. E o fenômeno é visível: quando deslizo as mãos pelo lado direito da minha barriga, uma bolinha aparece e desponta, como se ele fosse realmente um bichinho enrolado e arrepiado.

Caio já tem oito meses de vida – por isso entendo que, por mais que meu ventre estique e estique, neste ponto nós dois estamos espremidos e cansados. Ele reclama se durmo virada para os lados direito ou esquerdo. De barriga para cima, concorda apenas se a coluna ficar bem ereta, o que torna nossas madrugadas insones e com frequentes negociações.

Ao dividir com ele meu corpo, minhas horas, meus nutrientes, amplio meu cansaço e aprendo que estarmos vivos, dentro ou fora de um útero, requer abraçarmos a multiplicidade das experiências, suas dificuldades e seus prazeres. A vida real aperta, espreme e ao mesmo tempo abraça e conforta. Haja coragem. Compartilhar a vida com um novo ser, seja através da experiência da gestação ou não, é desconfortável e as vezes dolorido. Mas não há outra estrada que nos prepare e nos direcione melhor para o afeto e a entrega, forças humanas tão poderosas, que fazem valer uma existência e já me fazem amar Caio apenas por senti-lo soluçar.

Fora do Pódio

Publicada no Jornal Zero Hora em 15/06/2017

Quando a corrupção corre na frente, todos perdem a maratona. As figuras dos ramos político ou empresarial, envolvidas em escândalos, parecem argutas, mas ao passo que engrossam fortunas, submetem seus próprios descendentes à persistência no terceiro mundo. Por mais privilégios que possam ter, os familiares dos corruptíveis, vez ou outra, colocam o nariz na civilização e estão sujeitos aos mesmos problemas que os demais (com exceção dos que mudam para o Exterior).

 

Já se vão algumas décadas em que governos de diversas ideologias perderam a oportunidade de mudar este país e levá-lo para outro patamar de desenvolvimento. Basta visitarmos escolas ou hospitais públicos para verificarmos que o salto necessário não foi dado. É avassalador pensar que existia capacidade financeira para isso, vide as verbas impressionantes do BNDES destinadas às propinas.

 

Por isso, fico confusa ao ouvir impetuosas justificações a respeito da conduta de diversos personagens públicos envolvidos nos escândalos atuais. Sem a pretensão de julgar a simpatia por determinados partidos ou figuras políticas, apenas me sinto chateada ao perceber que certos debates ainda comparam as proporções dos desvios, como se alguma escala de imoralidade fosse relevante ou salvasse alguém no cenário. Ainda mais frustrante é perceber que muitas pessoas desejam o retorno de políticos já denunciados, como se a renovação política não fosse uma necessidade urgente.

 

Neste contexto, observo que são perspicazes as observações ou teorias elaboradas sobre os interesses envolvidos nas manifestações, nos movimentos que organizam protestos, nas diferentes mídias. Entretanto, a incoerência facilmente contamina os discursos quando há defesa de algum lado. Fatos recentes demonstram que o poder e o dinheiro se sobrepuseram a quaisquer ideologias.

 

Deveríamos nos unir em favor de causas, como a educação. Infelizmente, no Brasil desta década, ao defendermos partidos, movimentos ou até pessoas, arriscamos contribuir para a perpetuação de projetos de poder. E continuamos fora do pódio.

Insegurança

Publicada no Jornal Zero Hora em 15/06/2017

De noite as cidades
disfarçam defeitos,
usam roupa de festa.

Porto Alegre,

eu assisto as tuas luzes
em um trem sem portas.

A saudade das tuas ruas

vem a trote:
um cavalo arredio
sobe e desce lombas,
quebra meus ossos.

Ontem mesmo
eu caminhava com sacolas
em teus redutos,
não tinha medo
dos teus viadutos.

Hoje adormeço
a vontade de percorrer-te.

 

Cecília tem pressa

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Imagem “Sóis e pessoas” por Cecília

A menina de olhos verdes fez três anos. E neste dia eu aplaudi sua independência de quem já soube escolher o sabor do bolo, as cores do balão, a roupa e o lugar da festa.

“Quero na pracinha, mamãe.”

“Tá bem Cecília, vai ser na pracinha.”

Nasci para lhe dar limites, mas também para lhe mostrar os quintais do mundo.

Cecília tem pressa.

“Eu vou crescer bem grande amanhã para tomar café.”

Sim, ela vai crescer, tomar café, dirigir automóveis e talvez morar longe. Naturalmente reclamarei de nossa distância e fingirei que não percebo o quanto de mim residirá para sempre nela. E o quanto dela ainda surgirá em mim.

Por ora finjo que não me enxergo quando a professora diz que ela é uma menina observadora, que não age impulsivamente. Que fica tímida em público. Finjo que não sei que ela é decidida e desenha bem como o pai.

A verdade é que juntos nos modificamos e nos influenciamos. A independência é uma belíssima farsa quando sentimos amor.

E Cecília é muito amável. Seus olhos, a um metro e poucos centímetros do chão, já percebem quando estou triste e fazem seus dedinhos arrastarem os cantos de minha boca para cima.

Cecília tem suas birras, como qualquer criança com sede de aprender o que deve ser feito desta vida, mas na maior parte do tempo é meiga e feliz. Acha que consegue correr porque o seu tênis é rápido. Adora roupas com bolsos e desenha vestidos com botões. Gosta de queijo e de pular alto como os coelhos. Anda no balanço só se o embalo for muito forte. Fica muito feliz quando vê a Lua. E noutro dia, com as mãos unidas, gritou, de dentro do carrinho do supermercado:

– Mamãe, olha, eu sei fazer ioga!

Eu amo Cecilia porque desde que ela nasceu, fez com que eu me amasse quando não podia mais me ver. Espelhos são desnecessários quando temos alguém para cuidar.

Desde que ela nasceu, sinto uma pura e desesperada vontade de melhorar o mundo só para que ela não sofra. Para que ela continue fazendo as pessoas na sua volta sorrirem. Para que ela tenha uma vida linda, repleta de festas de aniversários e bolos de morango em pracinhas cheias de amigos.

3 de setembro de 2017.

Inventário de tolices que importam

Fotografia por Unsplash

pes descalços

Pés no chão, eu encostava na pele do mundo. Ainda criança, corria pelas ruas e escalava em árvores no centro da cidade. Entrava nos porões em construção e machucava os joelhos nas cercas. Roubava bergamotas. Lembro enquanto bebo um vinho (e talvez porque esteja bebendo um vinho). Na borda da taça escorre uma vontade de pés descalços.

Aos domingos acordava cedo para assistir Formula 1. Depois da corrida, comia churrasco com salada de maionese. Eu sabia as cores dos capacetes, os patrocínios de cada piloto e anotava as colocações de cada equipe. Não dou a mínima para automobilismo hoje, mas pagaria mil garrafas deste vinho por aquele caderno, perdido desde que o passatempo acabou no domingo mais triste de 1994.

A bebida ainda está na metade, mas cabem nela as notas nostálgicas do mundo. Lembranças que seriam tolas, não fossem marcantes como taninos: “Você tem a faca, o queijo e meu coração nas mãos”. A poesia deste verso rasgava a tarde adolescente e eu o repetia na fita cassete dezenas de vezes. Já usava sapatos quando comecei a ouvir músicas em isolamento. E estava na faculdade quando dançava enlouquecidamente no carpete verde de um apartamento na Cidade Baixa: “To the gypsy / That remains / She faces freedom / With a little fear”.

Hoje eu desliguei a televisão, seus seriados inúteis, suas notícias ruins. Preferi sentir saudades de mim, de meus momentos (vergonhosos inclusive), minhas manias  e até de minhas tristezas. Um adorável inventário onde encontrei lembranças e objetos, como por exemplo uma pasta de escritório, onde arquivava letras de músicas, as quais fingia vender para grandes gravadoras. Uma foto onde me achava linda, só porque coloquei uma faixa colorida no cabelo, apesar das espinhas e do aparelho dentário. Encontrei testes bobinhos de revistas femininas igualmente bobinhas, que me faziam imaginar a mulher que um dia seria (felizmente imaginei errado). Encontrei também muitos poemas, rascunhos de versos borrados com lágrimas clichê, tortinhos e imaturos como deveriam ser quando a autora tem quinze anos.

Agora que o vinho acabou e antes que eu lembre de algumas bobagens mais sérias, peço licença para ligar a TV.

Luz no início do túnel

20170514_1901571.jpgArte: Rogério Weber Kirst

Minha mãe varre o chão enquanto finjo dormir no sofá. Meu pai chega e comenta algo sobre como eu pareço cansada. Adoro estar em casa e ainda não ter tirado o uniforme da escola. Sinto fome, mas a preguiça é e sempre será irresistível.

Esta é uma cena antiga, armazenada como um pequeno vídeo aqui dentro de mim. Se a descrevesse amanhã, talvez os mesmos detalhes não seriam lembrados. Pequenas memórias são flashes que inundam meu cérebro. Arquivos que, se fossem colados uns nos outros, transformariam-se em filmes ou seriados particulares. Por ora, são apenas pedaços de uma vida em vídeos independentes.

Esforço-me para encontrar outros ângulos e experiências, pois sinto que me transformo a cada recordação. De certa forma é angustiante saber que vivi momentos dos quais não lembro ou pensar que muitos fragmentos de minha existência estão em memórias alheias.

Seria uma estupidez andar por aí farejando arquivos? Ainda não sei. Nesta busca há um túnel escuro, onde alguns anos somem por completo.  Dizem que esquecemos certas coisas por conveniência e consertamos outras memórias a nosso gosto ou para o nosso bem estar. Pensar nisso é cansativo.

Ao vasculhar lembranças percebo que vou armazenar algumas memórias da minha filha. Serei responsável por filmar e editar algumas de suas primeiras experiências. Como irei, lá no futuro, contar a ela o que agora vejo? A resposta é tão abstrata quanto são os meus primeiros passos, mas desde que ela nasceu uma pequena luz está acesa no início do meu túnel. Agora, ao menos, posso imaginar meus primeiros anos de vida enquanto a observo.

Assim, de carona, redescubro vivências: o contato com a água, esquiva e a mesmo tempo invasiva; o cubo de gelo que, em sublime contradição, machuca os poros e alivia a dor; o sentido das saias, que ao serem colocadas no corpo, instantaneamente nos vestem com a liberdade.

Relembrar é sem dúvida viver, mas redescobrir é ampliar a intensidade das experiências.

Assim eu rodo, em saias e lembranças que se misturam e não sei se são minhas ou dela.

 

Crônica escrita em julho de 2016.

{Em julho de 2016 Cecília tinha um ano e dez meses, já havia descoberto a fugacidade das bolhas de sabão e a maciez do algodão. Não resistia aos cubos de gelo. Queria tocar em todas as árvores e todas as folhas. O mundo aparecia em todos os seus sentidos.}

Portas abertas

IMG_0378As seis e vinte da manhã o ar é um grande bocejo. Além de um gato negro, poucos se aventuram na rua: o tio do tênis Nike, os dois caras de mochila que conversam sílabas, o sujeito de fone de ouvido e cara aborrecida, o entregador de jornais e eventualmente Jorge, que parece violento, mas desde que vive na rua, é a única vítima dos próprios berros.

Em meio a quase poesia das cores matinais, entre o canto de um bem te vi e a resposta de outro, observo os cuidadores de idosos saindo de algumas casas. Este é definitivamente o horário das trocas de turno.  Nestas residências há pouco movimento e seus moradores são como vizinhos misteriosos. Inusitadamente, numa dessas manhãs, uma senhora de cabelos brancos espiava por sua vidraça o movimento da rua. Fixou em mim por alguns instantes seu olhar sério.

Enquanto giro em ponteiros inquietos, pergunto-me o que fazem ela e os outros idosos do bairro? O que pensam e o que almejam enquanto sonho com um tempo livre? Sinto um abismo entre quem sai para trabalhar e os que ficam sozinhos e por vezes enfastiados em seus alpendres. Será que aprendemos como poderíamos com quem já percorreu nossos caminhos? Essas grandes cidades, inventadas para andarmos enlouquecidos de um lado a outro, parecem segregar sistematicamente as crianças, os adultos e os idosos ao longo do dia. É utópico e talvez seja efeito do sono da manhã, mas imagino meu bairro com todas as portas abertas. Assim como era (ou fantasio que era) o bairro da minha infância.

Ao lado da minha casa mora uma outra senhora que costuma sentar numa agradável varanda ao entardecer. No inverno não a vejo, mas no verão ela abana cada vez que passo ali. Eu sempre a cumprimentava e falava algumas palavras, até que um dia ela sinalizou que não conseguia ouvir. Mantive os gestos e percebi a irrelevância das palavras. Sem que exista qualquer história passada entre nós, seu sorriso simpático e significativo é claramente necessário para mim. Sinto sua falta no inverno e este sentimento humaniza a calçada por onde devo prosseguir.