Cecília tem pressa

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Imagem “Sóis e pessoas” por Cecília

A menina de olhos verdes fez três anos. E neste dia eu aplaudi sua independência de quem já soube escolher o sabor do bolo, as cores do balão, a roupa e o lugar da festa.

“Quero na pracinha, mamãe.”

“Tá bem Cecília, vai ser na pracinha.”

Nasci para lhe dar limites, mas também para lhe mostrar os quintais do mundo.

Cecília tem pressa.

“Eu vou crescer bem grande amanhã para tomar café.”

Sim, ela vai crescer, tomar café, dirigir automóveis e talvez morar longe. Naturalmente reclamarei de nossa distância e fingirei que não percebo o quanto de mim residirá para sempre nela. E o quanto dela ainda surgirá em mim.

Por ora finjo que não me enxergo quando a professora diz que ela é uma menina observadora, que não age impulsivamente. Que fica tímida em público. Finjo que não sei que ela é decidida e desenha bem como o pai.

A verdade é que juntos nos modificamos e nos influenciamos. A independência é uma belíssima farsa quando sentimos amor.

E Cecília é muito amável. Seus olhos, a um metro e poucos centímetros do chão, já percebem quando estou triste e fazem seus dedinhos arrastarem os cantos de minha boca para cima.

Cecília tem suas birras, como qualquer criança com sede de aprender o que deve ser feito desta vida, mas na maior parte do tempo é meiga e feliz. Acha que consegue correr porque o seu tênis é rápido. Adora roupas com bolsos e desenha vestidos com botões. Gosta de queijo e de pular alto como os coelhos. Anda no balanço só se o embalo for muito forte. Fica muito feliz quando vê a Lua. E noutro dia, com as mãos unidas, gritou, de dentro do carrinho do supermercado:

– Mamãe, olha, eu sei fazer ioga!

Eu amo Cecilia porque desde que ela nasceu, fez com que eu me amasse quando não podia mais me ver. Espelhos são desnecessários quando temos alguém para cuidar.

Desde que ela nasceu, sinto uma pura e desesperada vontade de melhorar o mundo só para que ela não sofra. Para que ela continue fazendo as pessoas na sua volta sorrirem. Para que ela tenha uma vida linda, repleta de festas de aniversários e bolos de morango em pracinhas cheias de amigos.

3 de setembro de 2017.

Luz no início do túnel

20170514_1901571.jpgArte: Rogério Weber Kirst

Minha mãe varre o chão enquanto finjo dormir no sofá. Meu pai chega e comenta algo sobre como eu pareço cansada. Adoro estar em casa e ainda não ter tirado o uniforme da escola. Sinto fome, mas a preguiça é e sempre será irresistível.

Esta é uma cena antiga, armazenada como um pequeno vídeo aqui dentro de mim. Se a descrevesse amanhã, talvez os mesmos detalhes não seriam lembrados. Pequenas memórias são flashes que inundam meu cérebro. Arquivos que, se fossem colados uns nos outros, transformariam-se em filmes ou seriados particulares. Por ora, são apenas pedaços de uma vida em vídeos independentes.

Esforço-me para encontrar outros ângulos e experiências, pois sinto que me transformo a cada recordação. De certa forma é angustiante saber que vivi momentos dos quais não lembro ou pensar que muitos fragmentos de minha existência estão em memórias alheias.

Seria uma estupidez andar por aí farejando arquivos? Ainda não sei. Nesta busca há um túnel escuro, onde alguns anos somem por completo.  Dizem que esquecemos certas coisas por conveniência e consertamos outras memórias a nosso gosto ou para o nosso bem estar. Pensar nisso é cansativo.

Ao vasculhar lembranças percebo que vou armazenar algumas memórias da minha filha. Serei responsável por filmar e editar algumas de suas primeiras experiências. Como irei, lá no futuro, contar a ela o que agora vejo? A resposta é tão abstrata quanto são os meus primeiros passos, mas desde que ela nasceu uma pequena luz está acesa no início do meu túnel. Agora, ao menos, posso imaginar meus primeiros anos de vida enquanto a observo.

Assim, de carona, redescubro vivências: o contato com a água, esquiva e a mesmo tempo invasiva; o cubo de gelo que, em sublime contradição, machuca os poros e alivia a dor; o sentido das saias, que ao serem colocadas no corpo, instantaneamente nos vestem com a liberdade.

Relembrar é sem dúvida viver, mas redescobrir é ampliar a intensidade das experiências.

Assim eu rodo, em saias e lembranças que se misturam e não sei se são minhas ou dela.

 

Crônica escrita em julho de 2016.

{Em julho de 2016 Cecília tinha um ano e dez meses, já havia descoberto a fugacidade das bolhas de sabão e a maciez do algodão. Não resistia aos cubos de gelo. Queria tocar em todas as árvores e todas as folhas. O mundo aparecia em todos os seus sentidos.}

A tampinha da laranja

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Arte: Rogério Weber Kirst

Descasquei, pela primeira vez, uma laranja para entregá-la inteira a minha filha (ou quase isto, pois não resisti e removi as sementes). Não é fato relevante que se publique em jornais, mas ao realizar este pequeno ato, algo que não faria para mim por pura preguiça, sem querer sobrevoei lembranças que estavam dormindo, como as das inúmeras frutas descascadas pelo meu pai durante minha infância.

Logo antes de entregar-me uma laranja, ele cortava uma fatia de uma das extremidades e criava uma espécie de tampinha presa ao restante da fruta. Eu começava a comer exatamente por esse pedaço, uma provinha que denunciava como seria o restante, mais ou menos ácida, mais ou menos doce.

Criar a tampinha era apenas um gesto singelo, embora significativo, porém existiam outros que eu amava, como o buona notte antes de dormir e o colinho depois do almoço. Um bom pai não precisa levar seus filhos a Disney, a grandes cidades ou a museus fantásticos. Basta que espalhe seu afeto nas escadarias da casa.

A adrelina e a endorfina produzidas pelas montanhas russas não superam o poder incluso em atos de carinho. Eu gosto de conhecer o mundo, mas cada vez mais descubro que as maiores emoções estão dentro de mim.

Aproveitar a vida é um conceito relativo. Não me convidem para snowboard, paragliding, escaladas ou bebedeiras, apenas dividam comigo preciosos afetos.

Hoje enxerguei paisagens lindas ao descascar uma simples laranja. Isto deve ser parecido ou igual a felicidade.

Escrita em novembro de 2016.

 {Cecilia tem dois anos e dois meses. Gosta de ir ao supermercado para comprar “frutinhas”. Suas preferidas são laranja, uva, manga e melancia.}

A Lua não veio

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A lua não veio, mamãe.

Fim de tarde, o céu ainda claro, a primavera a suplantar o inverno. Como explicar?

A lua vai chegar mais tarde, com a noite e as brilha brilhas.

Daqui a pouco minhas respostas não serão convincentes. Seus porquês virão em série, como testes de revista a provar que eu estudei o suficiente para um dia, entre outras realidades, ser sua mãe.

Como o Sebastião daquela música, você me perguntará porque iremos viajar no verão.

E eu viajarei na Wikipédia, lerei novamente os clássicos, estudarei o céu e solstícios, a biologia marinha, o fitoplanctum, Marx, Lenin e Lenine. Mesmo assim eu não serei capaz de lhe dar todas as respostas.

É a tal incompletude humana, que nos move a sermos um pouco melhores hoje do que ontem. Por sorte o ensinar não se resume às explicações, envolve sobretudo a elucubração e a transformação do que está sendo discutido.

Meus pais, por exemplo, ensinaram-me a cultivar uma horta de mãos sujas. A bibliografia nem sempre importa.

O calendário já está ansioso porque um dia você vai descobrir que também me educa, mesmo que eu tenha nascido trinta e cinco anos antes, mesmo que eu tenha sido sua casa por um tempo.

Todo filho, em algum momento, percebe que seus pais são apenas luas em órbita, ora imponentes, ora minguantes. Cheios ou incompletos. Sábios ou inseguros. Assim como o móbile de sóis amarelos em seu berço, que você chama de “Céu da Cecília”, estamos todos dançando, sujeitos às mudanças de estação e às aleatoriedades do universo.

Escrito em agosto de 2016.

{Cecília tinha quase dois anos quando começou a procurar no céu a Lua, as estrelas – brilha brilhas – e o sol. Enquanto ela segue a descobrir os astros e as diferenças entre o dia e a noite, cientistas realizam suas descobertas espaciais. Em 2016 foram revelados nove planetas fora do sistema solar que poderiam apresentar condições para a vida.}

 

Manoel de Barros

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             Você tem um ano e três meses. É um ser humano carinhoso e sorridente. Aliás, o poeta Manoel de Barros (um dia lhe apresento) foi quem me ensinou: as crianças sabem mais das importâncias da vida.

            É intrigante pensar que nós, quando ainda em formação neurológica, parecemos melhores. Desculpe o pessimismo, mas por aqui, no lado dos adultos, vivemos um dia triste. Queria arrumar o mundo antes de você fazer dezoito, mas sei que sozinha não poderia eliminar os antônimos dos abraços que você gosta de dar. No seu universo, ainda não existem palavras que machucam os ouvidos, como terrorismo, violência e guerra, mas elas são reais e estão ali no jornal que você recém rabiscou.

            Talvez no futuro, talvez em alguma aula de filosofia, você questione: “Por que a maldade existe?”. Eu olho para seus olhos, totalmente vivos, receptivos às belezas que só as crianças percebem e pergunto-me: em qual momento de nossas vidas perdemos a leveza, a simples capacidade de existirmos em meio a natureza? Um dia lhe direi que “somos tão importantes quanto aquela formiga”, embora eu saiba que tentarão lhe ensinar que somos superiores. A busca por uma grandeza ilusória, seja ela financeira, religiosa ou política, alimenta a maior parte da estupidez existente no ser humano.

            Você crescerá e verá pessoas infelizes enquanto um sol morno as abraça. Verá óculos escuros conduzindo rostos em círculos, enquanto um sentido lhes acena. Nem sei se estarei perto quando você entender a dimensão de uma tragédia fora da televisão, tampouco quando você ouvir histórias absurdas sobre desgraças supostamente comandadas por deuses.

            Na escola, seus professores apresentarão o cérebro humano como uma ferramenta magnífica, capaz de reger a pintura de um quadro ou a execução de uma música. Mas hoje, especialmente hoje, eu não posso lhe mostrar um mundo saturado de artistas, apenas um “museu de grandes novidades” repetidas nos noticiários. Se existem deuses, penso que eles deveriam ter seu rosto ao acordar e não o de um homem bomba.

            Vários sites dizem que a sua geração vai mudar o mundo: crianças espertas e iluminadas. Não quero que você carregue este peso. Pelo contrário, quero que os adultos de hoje olhem para crianças como você e simplesmente freiem o terror.

            Desculpe o desabafo, a realidade por vezes rasga a poesia do Manoel e rouba-nos o tempo de brincar.

Crônica escrita em Novembro de 2015. 

{Em novembro de 2015 atentados terroristas foram notícia enquanto Cecília arriscava suas primeiras palavras e seus passos ganhavam firmeza. Mais de 180 pessoas morreram devido a um ataque no dia 13 de novembro de 2015 em Paris. Pouco tempo depois, em janeiro de 2016, ocorreu um atentado em Burkina Fasso, na África, com 26 mortos. Enquanto isso, a guerra na Síria, que se arrasta desde 2011, espalhava (e ainda espalha) refugiados pelo mundo e seguia fazendo vítimas inocentes como crianças da idade de Cecília}.

De nada sabemos

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Arte: Rogério Weber Kirst

Minha pequenina, de nada sabemos.

O mundo lá fora anda e desanda, grita e cala. Os ponteiros ficam tontos e os dias repetem seus amanheceres e poentes.

Eu até poderia lhe mostrar a vida além das esquadrias, mas o mundo passaria por nossos olhos apressado, como uma paisagem distorcida na janela de um trem.

Ainda é cedo. Nossos momentos são mais vagarosos que os relógios. Nossos segundos são apenas malabares: os jogamos para cima, para baixo ou simplesmente os ignoramos.

Nenhum tempo ousaria contar a duração de nossos olhares — absolutos e nada matemáticos.

Enquanto dormimos, notícias pouco ou nada importantes correm da esquerda para a direita nos jornais.  A mesma pressa que vira as páginas logo as esquece.

Estamos escondidas e talvez a salvo das coisas que os homens inventam para se ocuparem: as tarifas, as lâmpadas dos postes dormentes, os condomínio fechados (cercados) e os cardápios dos almoços. Não dançamos coreografias e nem sequer lemos as cartas que aqui chegam.

Só notamos o acercar da noite pela insistência dos bocejos. Curamos a fome porque ela reclama com vozes grossas.

Quando eu não era sua mãe, eu soprava as nuvens para que não chovesse e andava descalça para entender os caminhos (os pés as vezes doíam). O mundo balançava em minha bolsa e pesava mais do que seus bracinhos quando lhe embalo.

Meu passo era firme e apressado e, mesmo assim, minhas pernas nunca chegavam — o destino era tão distante que eu remava barcos de madrugada.

Ah, o longe…Por enquanto o meu colo lhe basta, mas sei que um dia esta tarde lenta de malabares será apenas uma lembrança. Você vai acelerar, sair e carregar o mundo em sua mochila. E eu, de braços curtos, embalarei nossas memórias e regarei seus caminhos em pensamento para que ele não machuque seus pés.

Crônica escrita em outubro de 2014. Publicada em Outubro de 2016.

{Em outubro de 2014, Cecília tinha um mês de vida. Luzes e cores cansavam seus olhos. Ela dormia quarenta e cinco minutos a cada três horas. No mesmo mês, na televisão, candidatos a presidência do país falavam uma língua que não entendíamos. }