Luz no início do túnel

20170514_1901571.jpgArte: Rogério Weber Kirst

Minha mãe varre o chão enquanto finjo dormir no sofá. Meu pai chega e comenta algo sobre como eu pareço cansada. Adoro estar em casa e ainda não ter tirado o uniforme da escola. Sinto fome, mas a preguiça é e sempre será irresistível.

Esta é uma cena antiga, armazenada como um pequeno vídeo aqui dentro de mim. Se a descrevesse amanhã, talvez os mesmos detalhes não seriam lembrados. Pequenas memórias são flashes que inundam meu cérebro. Arquivos que, se fossem colados uns nos outros, transformariam-se em filmes ou seriados particulares. Por ora, são apenas pedaços de uma vida em vídeos independentes.

Esforço-me para encontrar outros ângulos e experiências, pois sinto que me transformo a cada recordação. De certa forma é angustiante saber que vivi momentos dos quais não lembro ou pensar que muitos fragmentos de minha existência estão em memórias alheias.

Seria uma estupidez andar por aí farejando arquivos? Ainda não sei. Nesta busca há um túnel escuro, onde alguns anos somem por completo.  Dizem que esquecemos certas coisas por conveniência e consertamos outras memórias a nosso gosto ou para o nosso bem estar. Pensar nisso é cansativo.

Ao vasculhar lembranças percebo que vou armazenar algumas memórias da minha filha. Serei responsável por filmar e editar algumas de suas primeiras experiências. Como irei, lá no futuro, contar a ela o que agora vejo? A resposta é tão abstrata quanto são os meus primeiros passos, mas desde que ela nasceu uma pequena luz está acesa no início do meu túnel. Agora, ao menos, posso imaginar meus primeiros anos de vida enquanto a observo.

Assim, de carona, redescubro vivências: o contato com a água, esquiva e a mesmo tempo invasiva; o cubo de gelo que, em sublime contradição, machuca os poros e alivia a dor; o sentido das saias, que ao serem colocadas no corpo, instantaneamente nos vestem com a liberdade.

Relembrar é sem dúvida viver, mas redescobrir é ampliar a intensidade das experiências.

Assim eu rodo, em saias e lembranças que se misturam e não sei se são minhas ou dela.

 

Crônica escrita em julho de 2016.

{Em julho de 2016 Cecília tinha um ano e dez meses, já havia descoberto a fugacidade das bolhas de sabão e a maciez do algodão. Não resistia aos cubos de gelo. Queria tocar em todas as árvores e todas as folhas. O mundo aparecia em todos os seus sentidos.}

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