O Reinado


Brinca a menina

Na floresta das cascas

Cata estrelas podres

Em latas de alumínio.

O brilho das sobras

Tem cheiro de lixo     

Os pés acostumam-       

Queimam no ácido.

Seu reino é o dejeto   

Dos nobres condomínios   

Onde dormem crianças   

Alheias ao resto.

Poema livre produzido no Desafio Literário 2019, promovido pelo Instituto Estadual do Livro RS. Texto premiado em 1º lugar (juntamente com outros textos de gêneros variados).

Insegurança

Publicada no Jornal Zero Hora em 15/06/2017

De noite as cidades
disfarçam defeitos,
usam roupa de festa.

Porto Alegre,

eu assisto as tuas luzes
em um trem sem portas.

A saudade das tuas ruas

vem a trote:
um cavalo arredio
sobe e desce lombas,
quebra meus ossos.

Ontem mesmo
eu caminhava com sacolas
em teus redutos,
não tinha medo
dos teus viadutos.

Hoje adormeço
a vontade de percorrer-te.

 

Renascimento

20140904_085834

seu choro agudo

arrebentou a sala

incólumes aos cacos,

nos consertamos no primeiro abraço

surgi intrépida do pavor –

carrego-a por tempestades e guarneço as pontas do mundo

você nasceu:

parto de mim

para ser algo novo

Outubro de 2014