Caio já nasceu

Foto por Gane Coloda. GC_VaneCaio-148

Entre as convenções já criadas neste mundo, está a de que uma pessoa nasce quando sai do útero de sua mãe. Deixarei o cartório pensar assim, mas o aniversário de Caio será antes, ao menos para mim. Caio nasceu quando começou a soluçar, o que ocorreu há uns dois meses. Você poderia dizer que uma pessoa não nasceu se ela soluça após as refeições? Nós comemos, ele soluça.

Caio parece calmo, como um peixe tranquilo de caudas para cima. Poucas vezes chuta minhas costelas e quando o faz, é com delicadeza. Ao contrário de sua mãe, fica agitado com música e ioga. Gosta de ficar enrolado com os pés e mãos na cabeça e daí surgiu seu apelido: tatu-bola. Afinal, alguém que já nasceu pode ter um apelido. E o fenômeno é visível: quando deslizo as mãos pelo lado direito da minha barriga, uma bolinha aparece e desponta, como se ele fosse realmente um bichinho enrolado e arrepiado.

Caio já tem oito meses de vida – por isso entendo que, por mais que meu ventre estique e estique, neste ponto nós dois estamos espremidos e cansados. Ele reclama se durmo virada para os lados direito ou esquerdo. De barriga para cima, concorda apenas se a coluna ficar bem ereta, o que torna nossas madrugadas insones e com frequentes negociações.

Ao dividir com ele meu corpo, minhas horas, meus nutrientes, amplio meu cansaço e aprendo que estarmos vivos, dentro ou fora de um útero, requer abraçarmos a multiplicidade das experiências, suas dificuldades e seus prazeres. A vida real aperta, espreme e ao mesmo tempo abraça e conforta. Haja coragem. Compartilhar a vida com um novo ser, seja através da experiência da gestação ou não, é desconfortável e as vezes dolorido. Mas não há outra estrada que nos prepare e nos direcione melhor para o afeto e a entrega, forças humanas tão poderosas, que fazem valer uma existência e já me fazem amar Caio apenas por senti-lo soluçar.

Luz no início do túnel

20170514_1901571.jpgArte: Rogério Weber Kirst

Minha mãe varre o chão enquanto finjo dormir no sofá. Meu pai chega e comenta algo sobre como eu pareço cansada. Adoro estar em casa e ainda não ter tirado o uniforme da escola. Sinto fome, mas a preguiça é e sempre será irresistível.

Esta é uma cena antiga, armazenada como um pequeno vídeo aqui dentro de mim. Se a descrevesse amanhã, talvez os mesmos detalhes não seriam lembrados. Pequenas memórias são flashes que inundam meu cérebro. Arquivos que, se fossem colados uns nos outros, transformariam-se em filmes ou seriados particulares. Por ora, são apenas pedaços de uma vida em vídeos independentes.

Esforço-me para encontrar outros ângulos e experiências, pois sinto que me transformo a cada recordação. De certa forma é angustiante saber que vivi momentos dos quais não lembro ou pensar que muitos fragmentos de minha existência estão em memórias alheias.

Seria uma estupidez andar por aí farejando arquivos? Ainda não sei. Nesta busca há um túnel escuro, onde alguns anos somem por completo.  Dizem que esquecemos certas coisas por conveniência e consertamos outras memórias a nosso gosto ou para o nosso bem estar. Pensar nisso é cansativo.

Ao vasculhar lembranças percebo que vou armazenar algumas memórias da minha filha. Serei responsável por filmar e editar algumas de suas primeiras experiências. Como irei, lá no futuro, contar a ela o que agora vejo? A resposta é tão abstrata quanto são os meus primeiros passos, mas desde que ela nasceu uma pequena luz está acesa no início do meu túnel. Agora, ao menos, posso imaginar meus primeiros anos de vida enquanto a observo.

Assim, de carona, redescubro vivências: o contato com a água, esquiva e a mesmo tempo invasiva; o cubo de gelo que, em sublime contradição, machuca os poros e alivia a dor; o sentido das saias, que ao serem colocadas no corpo, instantaneamente nos vestem com a liberdade.

Relembrar é sem dúvida viver, mas redescobrir é ampliar a intensidade das experiências.

Assim eu rodo, em saias e lembranças que se misturam e não sei se são minhas ou dela.

 

Crônica escrita em julho de 2016.

{Em julho de 2016 Cecília tinha um ano e dez meses, já havia descoberto a fugacidade das bolhas de sabão e a maciez do algodão. Não resistia aos cubos de gelo. Queria tocar em todas as árvores e todas as folhas. O mundo aparecia em todos os seus sentidos.}

Manoel de Barros

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             Você tem um ano e três meses. É um ser humano carinhoso e sorridente. Aliás, o poeta Manoel de Barros (um dia lhe apresento) foi quem me ensinou: as crianças sabem mais das importâncias da vida.

            É intrigante pensar que nós, quando ainda em formação neurológica, parecemos melhores. Desculpe o pessimismo, mas por aqui, no lado dos adultos, vivemos um dia triste. Queria arrumar o mundo antes de você fazer dezoito, mas sei que sozinha não poderia eliminar os antônimos dos abraços que você gosta de dar. No seu universo, ainda não existem palavras que machucam os ouvidos, como terrorismo, violência e guerra, mas elas são reais e estão ali no jornal que você recém rabiscou.

            Talvez no futuro, talvez em alguma aula de filosofia, você questione: “Por que a maldade existe?”. Eu olho para seus olhos, totalmente vivos, receptivos às belezas que só as crianças percebem e pergunto-me: em qual momento de nossas vidas perdemos a leveza, a simples capacidade de existirmos em meio a natureza? Um dia lhe direi que “somos tão importantes quanto aquela formiga”, embora eu saiba que tentarão lhe ensinar que somos superiores. A busca por uma grandeza ilusória, seja ela financeira, religiosa ou política, alimenta a maior parte da estupidez existente no ser humano.

            Você crescerá e verá pessoas infelizes enquanto um sol morno as abraça. Verá óculos escuros conduzindo rostos em círculos, enquanto um sentido lhes acena. Nem sei se estarei perto quando você entender a dimensão de uma tragédia fora da televisão, tampouco quando você ouvir histórias absurdas sobre desgraças supostamente comandadas por deuses.

            Na escola, seus professores apresentarão o cérebro humano como uma ferramenta magnífica, capaz de reger a pintura de um quadro ou a execução de uma música. Mas hoje, especialmente hoje, eu não posso lhe mostrar um mundo saturado de artistas, apenas um “museu de grandes novidades” repetidas nos noticiários. Se existem deuses, penso que eles deveriam ter seu rosto ao acordar e não o de um homem bomba.

            Vários sites dizem que a sua geração vai mudar o mundo: crianças espertas e iluminadas. Não quero que você carregue este peso. Pelo contrário, quero que os adultos de hoje olhem para crianças como você e simplesmente freiem o terror.

            Desculpe o desabafo, a realidade por vezes rasga a poesia do Manoel e rouba-nos o tempo de brincar.

Crônica escrita em Novembro de 2015. 

{Em novembro de 2015 atentados terroristas foram notícia enquanto Cecília arriscava suas primeiras palavras e seus passos ganhavam firmeza. Mais de 180 pessoas morreram devido a um ataque no dia 13 de novembro de 2015 em Paris. Pouco tempo depois, em janeiro de 2016, ocorreu um atentado em Burkina Fasso, na África, com 26 mortos. Enquanto isso, a guerra na Síria, que se arrasta desde 2011, espalhava (e ainda espalha) refugiados pelo mundo e seguia fazendo vítimas inocentes como crianças da idade de Cecília}.

De nada sabemos

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Arte: Rogério Weber Kirst

Minha pequenina, de nada sabemos.

O mundo lá fora anda e desanda, grita e cala. Os ponteiros ficam tontos e os dias repetem seus amanheceres e poentes.

Eu até poderia lhe mostrar a vida além das esquadrias, mas o mundo passaria por nossos olhos apressado, como uma paisagem distorcida na janela de um trem.

Ainda é cedo. Nossos momentos são mais vagarosos que os relógios. Nossos segundos são apenas malabares: os jogamos para cima, para baixo ou simplesmente os ignoramos.

Nenhum tempo ousaria contar a duração de nossos olhares — absolutos e nada matemáticos.

Enquanto dormimos, notícias pouco ou nada importantes correm da esquerda para a direita nos jornais.  A mesma pressa que vira as páginas logo as esquece.

Estamos escondidas e talvez a salvo das coisas que os homens inventam para se ocuparem: as tarifas, as lâmpadas dos postes dormentes, os condomínio fechados (cercados) e os cardápios dos almoços. Não dançamos coreografias e nem sequer lemos as cartas que aqui chegam.

Só notamos o acercar da noite pela insistência dos bocejos. Curamos a fome porque ela reclama com vozes grossas.

Quando eu não era sua mãe, eu soprava as nuvens para que não chovesse e andava descalça para entender os caminhos (os pés as vezes doíam). O mundo balançava em minha bolsa e pesava mais do que seus bracinhos quando lhe embalo.

Meu passo era firme e apressado e, mesmo assim, minhas pernas nunca chegavam — o destino era tão distante que eu remava barcos de madrugada.

Ah, o longe…Por enquanto o meu colo lhe basta, mas sei que um dia esta tarde lenta de malabares será apenas uma lembrança. Você vai acelerar, sair e carregar o mundo em sua mochila. E eu, de braços curtos, embalarei nossas memórias e regarei seus caminhos em pensamento para que ele não machuque seus pés.

Crônica escrita em outubro de 2014. Publicada em Outubro de 2016.

{Em outubro de 2014, Cecília tinha um mês de vida. Luzes e cores cansavam seus olhos. Ela dormia quarenta e cinco minutos a cada três horas. No mesmo mês, na televisão, candidatos a presidência do país falavam uma língua que não entendíamos. }

Renascimento

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seu choro agudo

arrebentou a sala

incólumes aos cacos,

nos consertamos no primeiro abraço

surgi intrépida do pavor –

carrego-a por tempestades e guarneço as pontas do mundo

você nasceu:

parto de mim

para ser algo novo

Outubro de 2014