O Sorriso de Caio

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Que Monalisa que nada! O sorriso preeminente em minha vida é o do Caio.

Em plena pandemia – na verdade um pouco antes dela, já que estamos confinados desde que ele nasceu, há alguns meses – Caio deu seu primeiro sorriso tímido numa manhã de domingo. Desde então não parou.

Caio sorri ao acordar, ao tomar banho e nas trocas de fraldas. Sorri até ao despertar aos prantos na madrugada, quando nota que alguém o acudiu. Sorri quando está se contorcendo de dor de barriga, se você o provocar com uma brincadeira.

Mas há algo especial no seu riso além da frequência – uma doçura que espelha sua personalidade. Em seu rosto de apenas quatro meses, olhares e sorrisos combinam-se e transmitem empatia e amorosidade. Vai ver é somente um derretimento do meu coração materno e exagerado.

Quando Caio morava em mim, eu sentia um certo receio pela sua calmaria. No entanto, foi uma dadiva tê-lo tido como um visitante tranquilo em meu ventre, enquanto a vida sacudia-me num pandeiro sobressaltado. Seu sorriso remansoso é tudo o que eu preciso receber e repercutir ao mundo neste momento.

Você pode dizer que Caio sorri porque sua ingenuidade é alheia ao que está acontecendo lá fora: juntamente com uma pandemia sem precedentes, estamos sendo bombardeados pela ignorância politica diária, o egoísmo fantasiado de liberdade individual, a crise econômica, as milhares de mortes, a negação da ciência e a destruição impudente do meio ambiente.  Entretanto, quando um bebê reage com alegria e ternura a olhares, palavras e gestos de carinho, ele nos relembra de algo básico sobre nossa espécie, que nos acompanha desde o nascimento: somos movidos e nos desenvolvemos desde a primeira infância devido ao amor e ao afeto. Esta simples verdade que Caio escancara diariamente pode ser o motivo pelo qual devemos salvar-nos; afinal, se estamos a espera de uma vacina que nos cure completamente, alguns antígenos estão ali, nos primeiros meses de nossas vidas. 

Junho de 2020

Caio nasceu em Janeiro de 2020. Quando nos preparávamos para seus primeiros passeios, o isolamento social devido ao vírus COVID-19 iniciou em Porto Alegre. Desde então, Caio está confinado e aprendendo sobre o mundo pela perspectiva de uma só casa. Enquanto vibramos e sorrimos com suas primeiras experiências e descobertas, os jornais escancaram tristes notícias e os cientistas e profissionais da saúde trabalham como nunca.

 

Rezar como uma menina

blaArte: Rogério Weber Kirst

Eu queria escrever uma crônica sobre o ano novo, mas tudo o que eu sinto é tão velho quanto a humanidade. A única certeza que tenho sobre o porvir é a repetição dos sentimentos: medos, angústias, esperanças, alegrias.

Mudanças não são regidas por calendários ou astros. Elas partem de cada consciência, de cada cabeça posta em um travesseiro ao quase dormir. Para planejar a vida, é importante esquecer as agendas e abraçar a cama.

Afinal, os problemas jamais darão trégua — ao virar do calendário continuaremos expostos aos mesmos dramas. Em janeiro tomarão posse novos políticos de ultrapassado caráter. Alguém querido ficará chateado com um exame ruim. A violência de unhas grossas arranhará pessoas que nós amamos. Irritantemente, pessoas continuarão a julgar a bondade ou a maldade por grupos ou ideologias, esquecendo que estes comportamentos são individuais. As ruas e as redes serão usadas como instrumento de intolerância, de ofensa e de manipulação.

A literatura continuará em decadência, assim como o pensamento e as diversas artes. Nós veremos e ouviremos poucos cientistas, filósofos e intelectuais, pois na televisão e na Internet se sobressairão as celebridades vazias e nada talentosas. As guerras não findarão, nem o planeta respirará ares sem gás carbônico e metano.

Entretanto, este texto tão deprimido e castigado por um 2016 obscuro, ainda acredita na luz que pode ressurgir em cada criado mudo. Minha avó, a mais querida do planeta, sempre rezou muito por seus afetos ao pé da cama. Ao contrário do que já pensei, rezar não é apenas uma questão de fé, nem uma forma de terceirizar os consertos do mundo.

Rezar é amor puro, é refletir sobre o que enfrentam aqueles com quem nos importamos e ponderar se amanhã faremos algo a respeito. Rezar é revisitar as próprias posturas e pensar em mudanças de comportamento, em novas estratégias para o amanhecer. Os anos vão e vem, mas só dentro de nós decidimos se eles serão como ondas, que simplesmente estouram na margem.

Há formigas pequenas porém ativas neste mundo insano. As pessoas positivas, transformadoras, generosas, engajadas e opinativas (de modo respeitoso) quase não frequentam a mídia pois não rendem likes e cliques. Quero acreditar, procurar e copiar estes humanos que não acordam apenas para respirar, consumir e gerar lixo.

E voltando ao ano novo, em primeiro lugar porque todos nós sofremos em 2016, mas especialmente porque amo minha avó, minha única e verdadeira resolução para 2017 é voltar a rezar como quando eu era menina.

Janeiro de 2017