Missing Scout

Arte por Rogério Weber Kirst

Coragem é fazer uma coisa mesmo estando derrotado antes de começar — prosseguiu Atticus. — E mesmo assim ir até o fim, apesar de tudo. Você raramente vai vencer, mas às vezes vai conseguir.” Harper Lee

“O Sol é para todos” está na minha lista de livros especiais. Tanto que as vezes me pego revisitando algumas páginas; sinto legitima saudade de Scout, a criança curiosa que também é a narradora da história, o que torna o livro absolutamente singular ao colocar um observador inocente em frente a questões sociais complexas. Além das problemáticas centrais – racismo e injustiça, Scout ensina sobre autenticidade e coragem. Adoro o fato de que Atticus, o pai de Scout, é uma das minhas maiores inspirações para a maternidade (palmas para a literatura), pela forma respeitosa com que conversa com os filhos, não subestimando a a capacidade de entendimento das crianças e suas opiniões. Atticus evidencia, pelo exemplo, que o melhor para o mundo passa bem longe de vencermos ou não uma discussão; é preferível beirarmos a verdade e a justiça – o que só alcançamos ao nos humildarmos perante o conhecimento.

Scout é uma personagem que de certa forma representa a esperança. Penso que, espelhos dela, milhares de crianças reais merecem a nossa evolução, como pessoas e como sociedade.

Por isso eu escolho a coragem como ferramenta de Ano Novo, a fim de materializar a simbologia de um calendário renovado. Num mundo poluído pela massificação de ideias, hábitos e vícios, tecnológicos ou não, é preciso ter a coragem de uma criança exploradora para restaurar, na lente dos olhos, uma pintura genuína da vida ao nosso redor e, principalmente, da nossa humanidade. A coragem de nos mostrarmos uma obra em execução, onde nos esforçamos para apagar as próprias falhas e preconceitos, onde reconhecemos nossos privilégios, onde rabiscamos e arriscamos novos traços, onde buscamos entender nossas legítimas aspirações, contrapõe-se a arrogância e a covardia dos quadros estáticos e suspensos. É preciso coragem para sermos pinturas vivas e inspiradoras. O caminho é trabalhoso, por vezes impopular a ponto de desagradar algumas plateias viciadas, mas o dinamismo de alguma evolução, por menor que seja, parece combinar mais com a própria natureza da qual somos parte.

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