Cor do Sol

Ilustração por Cecília Conz Kirst

“Sou mais esperta do que você, mamãe.”

Eu sei e assim desejo, mas para minimizar sua altivez, ao ouvir tal frase, expliquei-lhe indiretamente a importância da humildade, de que pessoas sempre tem o que aprender umas com as outras. Enfim, este é meu papel nesta história.

Cecília está aprendendo a ler e a escrever. Aos poucos, corrige as palavras e expressões que costumava usar erroneamente. Nunca ousei consertar o seu inspirador “cor do sol” e inclusive incorporei a palavra composta no meu dia a dia. Aliás, penso que o português poderia ser atualizado dinamicamente com a lógica das crianças, as quais adaptam a linguagem ao sentido de suas descobertas.

“Desbagunçar”, “caienta”, “odeiei”, são exemplos de construções que em breve ela abandonará, mas que estarão mais do que corretas no meu dicionário materno (e eterno).

Cecília está vivenciando uma explosão de descobrimentos. Enquanto brinca, faz dezenas de perguntas e afirmações. “Eu sei porque os carros baixos andam mais rápido.” “Eu sei porque a ponte móvel existe.” “Para que existe a Lua, se ela não ilumina o mundo?” Cecília também exige que seja incluída em todas as conversas: “Não falem mais deste assunto sem me chamar!” Às vezes o assunto é o conserto do aquecedor a gás.

E agora faz perguntas difíceis sobre os noticiários: “Mamãe, o que é índice de aprovação do presidente?” “Por que as florestas estão queimando?”

Cecília também está observando o mundo com empatia e senso crítico. Disparou, ao ver os operários de uma obra ao lado da nossa casa, num dia de inverno: “Eles não podem trabalhar hoje, está muito frio!”

Barcos a vela também conseguem navegar contra o vento. Assim vejo as crianças, com suas mentes curiosas, criativas e puras atravessando um mundo cheio de turbulências, porém de ideias retilíneas.

Hoje é o aniversário de Cecília. Enquanto ela apagar sua vela ao desejar algum brinquedo, não saberá que dentro de mim, há seis anos, existe uma chama indelével e orgulhosa, com a qual farei um pedido: vou desejar que ela sempre seja mais esperta do que eu. Que a sua curiosidade e espontaneidade sempre a acompanhem, seja com o vento contra ou a favor.

Crônica escrita em 03 de setembro de 2020.

Cecília completou seis anos em um dia chuvoso e em pleno isolamento social. Mesmo assim, seu dia foi alegre e colorido. Cecília pulou, cantou, correu e abriu presentes.