A tampinha da laranja

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Arte: Rogério Weber Kirst

Descasquei, pela primeira vez, uma laranja para entregá-la inteira a minha filha (ou quase isto, pois não resisti e removi as sementes). Não é fato relevante que se publique em jornais, mas ao realizar este pequeno ato, algo que não faria para mim por pura preguiça, sem querer sobrevoei lembranças que estavam dormindo, como as das inúmeras frutas descascadas pelo meu pai durante minha infância.

Logo antes de entregar-me uma laranja, ele cortava uma fatia de uma das extremidades e criava uma espécie de tampinha presa ao restante da fruta. Eu começava a comer exatamente por esse pedaço, uma provinha que denunciava como seria o restante, mais ou menos ácida, mais ou menos doce.

Criar a tampinha era apenas um gesto singelo, embora significativo, porém existiam outros que eu amava, como o buona notte antes de dormir e o colinho depois do almoço. Um bom pai não precisa levar seus filhos a Disney, a grandes cidades ou a museus fantásticos. Basta que espalhe seu afeto nas escadarias da casa.

A adrelina e a endorfina produzidas pelas montanhas russas não superam o poder incluso em atos de carinho. Eu gosto de conhecer o mundo, mas cada vez mais descubro que as maiores emoções estão dentro de mim.

Aproveitar a vida é um conceito relativo. Não me convidem para snowboard, paragliding, escaladas ou bebedeiras, apenas dividam comigo preciosos afetos.

Hoje enxerguei paisagens lindas ao descascar uma simples laranja. Isto deve ser parecido ou igual a felicidade.

Escrita em novembro de 2016.

 {Cecilia tem dois anos e dois meses. Gosta de ir ao supermercado para comprar “frutinhas”. Suas preferidas são laranja, uva, manga e melancia.}